Mulheres e bets: quando a aposta vira promessa de renda e afeta a saúde mental.
- Raquel Pedrosa de Almeida
- há 2 horas
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Durante muito tempo, as apostas foram associadas como um problema predominantemente masculino. Afinal, é o homem que costuma acompanhar futebol e é reconhecido por arriscar mais. Mas os números mais recentes mostram que essa leitura já não dá conta do que está acontecendo.
A pesquisa nacional “Mulheres e Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias”, divulgada em agosto de 2026 pelo estúdio Clarice, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA, revelou que 42% das mulheres brasileiras já apostaram em plataformas online. Dessas, 20% ainda apostam. Já entre aquelas que nunca apostaram, 12% afirmaram ser sido afetadas por parentes ou amigos que apostam. Somados os grupos, 54% das mulheres entrevistadas relatam algum impacto direto das apostas.
Dos dados divulgados, a que mais me chama a atenção é que, entre as mulheres que apostam, aquelas que têm filhos, apostam cerca de 1,6 vez mais do que as mulheres sem filhos. A justificativa para esse número é associada à tentativa de complementação de renda e pagamento de despesas básicas, como alimentação. E aqui começa uma discussão que vai muito além da escolha individual dessas mulheres.
O que acontece quando uma mulher que precisa fazer o dinheiro do mês chegar ao fim recebe, repetidamente, a mensagem de que existe uma maneira rápida de aumentar sua renda?
A promessa não precisa ser apresentada como luxo. Ela pode estar associada a necessidades cotidianas simples, como uma despensa com alimentos, acesso a material escolar, boletos em dia. Nesse sentido, a aposta deixa de parecer jogo e passa a ocupar o lugar de solução financeira. E quando uma saída improvável é apresentada como oportunidade, a fronteira entre esperança e exploração fica perigosa.
O Ministério da Saúde reconhece que os problemas relacionados às apostas são atravessados por fatores sociais, econômicos e psicossociais, incluindo renda, trabalho, moradia, educação, gênero e raça. A pasta também caracteriza as apostas como uma questão de saúde pública e chama atenção para a relação entre sofrimento mental e problemas relacionados ao jogo.
Existe ainda uma particularidade que merece atenção: a cobrança social sobre as mães. A pesquisa identificou que, quando uma mulher tem filhos, ela tende a ser mais julgada pelo comportamento relacionado às apostas e mais questionada como responsável pelo sustento e pela gestão da casa. Para os homens, a paternidade pode atenuar esse julgamento; para as mulheres, pode intensificá-lo.
Temos, então, uma situação bastante perversa. A sociedade atribui às mulheres uma responsabilidade enorme pela administração da vida doméstica. Quando elas não conseguem dar conta dessa responsabilidade, são responsabilizadas individualmente. E, quando procuram uma alternativa para aumentar a renda, podem encontrar justamente um mercado que lucra com a promessa de que isso é possível por meio de apostas.
A pesquisa encontrou ainda que 72% das mulheres entrevistadas acreditam que a publicidade contribui para que as pessoas apostem mais do que deveriam. Entre as entrevistadas, 79% disseram perceber mais conteúdos relacionados a apostas nas redes sociais depois do primeiro acesso às plataformas.
Não estamos falando apenas de pessoas tomando decisões isoladas. Estamos falando de um ambiente construído para tornar a aposta presente, familiar e aparentemente possível. Por isso, discutir esse contexto apenas como um comportamento inadequado é insuficiente.
Antes de julgar a mulher, precisamos olhar para o cenário que a cerca. Uma mãe não deveria precisar apostar para pagar a comida dos filhos. E uma sociedade que permite que a promessa de dinheiro rápido ocupe o lugar de uma política de renda, proteção social e educação financeira precisa assumir sua parcela de responsabilidade.
Com carinho,
Raquel Pedrosa.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 4/2025-CORAP/CGESMAD/DESMAD/SAES/MS: recomendações para gestores e profissionais de saúde da Rede de Atenção Psicossocial no cuidado integral às pessoas com problemas relacionados a jogos de aposta. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025.
AGÊNCIA BRASIL. Bets: quatro em cada dez mulheres apostam ou já apostaram online. Brasília, 17 ago. 2026. Pesquisa Mulheres e Bets, conduzida pelo estúdio Clarice, Estratégia Latina e Instituto Ideia.
